Agora está mais claro que a água: o eleitorado quer mudanças nos rumos do governo.
Não se trata mais apenas do eleitorado conservador. O anseio por novidades vem do próprio eleitorado lulista.
A prova disso está em que, na pesquisa Quaest divulgada hoje, uma maioria esmagadora quer um “governo diferente” mesmo nas regiões lulistas, como Pernambuco e Bahia.
O alerta passou de amarelo para vermelho.
Vamos aos números.
Não se trata, neste caso, de uma pesquisa nacional, e sim realizada em alguns estados específicos.
Mesmo assim, é possível detectar um movimento de âmbito nacional, porque foi feita em estados das regiões mais diferentes do país, e a deterioração da avaliação presidencial ocorreu em toda a parte.
Na Bahia, por exemplo, a aprovação caiu de 66% em dezembro de 2024 para 47% em fevereiro deste ano.
Em Pernambuco, também um estado lulista, 49% agora aprovam o governo Lula, contra 65% em dezembro passado.
No Rio de Janeiro, a aprovação está em 35%.
O que houve para que houvesse mudanças tão bruscas?
Na minha avaliação, essa queda brutal na avaliação do presidente e do governo possivelmente reflete algumas tendências profundas que estão se cristalizando na população.
A inflação dos alimentos com certeza é um elemento importante, mas talvez não seja o principal, porque os preços de muitos itens já começaram a cair desde o final do ano passado. Além do mais, a queda no desemprego e a melhora da economia são visíveis no crescimento nas vendas do varejo.
A pesquisa Quaest me lembra o caso Emmanuel Macron, presidente francês, cuja avaliação é muito baixa, em torno de 21% segundo uma pesquisa recente, contra rejeição impressionante de 79%. Outras lideranças europeias de centro, como o agora ex-primeiro ministro alemão, Olaf Scholz, tinham avaliações ainda piores.
Receio que Lula, talvez por não ter mais à sua volta quem o alerte, esteja vivendo um processo de “macronização”, ou seja, se conformando em se tornar um “queridinho” em alguns círculos da elite cosmopolita.
Mesmo o foco que Lula tem dado à defesa da “democracia” está me soando um pouco exagerado, porque parece mais voltado a agradar a classe média globalizada da Europa do que a oferecer, ao brasileiro comum, seja pobre, classe média ou rico, uma perspectiva realista de viver num país mais moderno, agradável e seguro.
Aqui na América Latina, vimos ainda o caso do presidente chileno, Gabriel Boric e do colombiano, Gustavo Petro, igualmente com avaliações gerais muito ruins junto a população, apesar de que, segundo consta, não estariam fazendo governos de todo ruins. A razão disso, possivelmente, é que também não estão conseguindo oferecer perspectivas de mudanças estruturantes para seus países.
Todos esses exemplos devem ser equiparados ao caso mexicano, onde a presidente atual, Claudia Sheinbaum, registra aprovação impressionante, sem que a economia do país esteja particularmente bombando, ou pelo menos sem que seus principais indicadores estejam muito melhores do que os do Brasil.
Há possivelmente um elemento psicológico, emocional, um pouco mais complexo, que apenas pesquisas mais qualitativas, mais cuidadosas, poderiam detectar. Posso arriscar algumas teorias aqui.
Primeiro, uma comparação. Uma razão para que a aprovação de Claudia Sheinbaum seja tão elevada, me parece, é que seu governo, até mesmo por ser o primeiro mandato dela, exala frescor e novidade, além de ter se tornado uma das principais “streamers” do México. A fórmula inventada pelo presidente anterior, de realizar coletivas de imprensa diárias, tem sido um sucesso absoluto, continuado pela atual mandatária.
No caso de Lula, estamos diante de uma situação oposta. Lula não é exatamente uma “novidade”, embora isso não devesse ser considerado algo negativo. Ao contrário, ser conhecido do eleitor é positivo, mas o problema de Lula e de seu governo, a meu ver, é que eles não conseguem sair da fórmula assistencialista. A esquerda nacional, inclusive suas vertentes mais radicais, também parece aprisionada numa cultura populista (aqui na acepção negativa), mais interessada em vender falsas ilusões do que em construir projetos de desenvolvimento estruturantes.
O prefeito de Maricá, Washinton Quaquá, fez algumas provocações interessantes, numa entrevista dada há pouco, dizendo que o governo Lula precisa formar um núcleo político ao redor do presidente, capaz de fazer crítica e se contrapor ao próprio chefe. Disse também – e isso me parece o mais relevante – que seria muito útil se fazer uma revisão do que entendemos hoje por ser de “esquerda.
Para ele, ser de esquerda, num país como o Brasil, é não apenas defender um projeto de desenvolvimento, mas sobretudo construí-lo, com muito pragmatismo e objetividade, fazendo as alianças necessárias, com o centro e o empresariado, visando melhorar e transformar a vida do povo.
Com exceção do programa Pé de de Meia, diz Quaquá, o governo só tem oferecido “pizza requentada”, ou seja, os mesmos projetos de sempre. Eu acrescentaria que mesmo o Pé de Meia, que oferece dinheiro aos estudantes, não é diferente de um bolsa família, dessa vez voltado aos estudantes, ou seja, é mais um programa assistencialista, com todos os impactos psicológicos que gera na relação entre sociedade e governo.
A fala de Quaquá remete a uma questão que venho martelando sempre: o governo Lula é conhecido e prestigiado por melhorar as coisas da porta de casa para dentro. O trabalhador está empregado, a renda real melhorou um pouco, os programas sociais estão mais robustos. Mas da porta de casa para a fora, onde ele passa a maior parte de sua vida, as coisas nunca melhoraram. A mobilidade de casa para o trabalho tem se deteriorado ano a ano, independente dos números positivos do PIB.
A mesma coisa se dá com a segurança pública. A vida dos brasileiros nas grandes cidades está infernal, e francamente eu fico sempre chocado diante da total alienação do governo e seus porta-vozes perante tanto sofrimento real. Vide o exemplo das festejadas novas “fábricas de automóveis” que estão sendo construídas em alguns estados, ou mesmo o aumento na venda de carros, registrada nos últimos meses. O governo ignora a situação das metrópoles, de total congestão das vias, fazendo com que as cidades brasileiras estejam se tornando as piores do planeta em tempo de tráfego? Será que ignoram o sofrimento das pessoas dentro de ônibus, metrôs insuficientes e trens caquéticos, sempre lotados, rodando a velocidades ridículas?
Com suas passagens aéreas compradas pelo Estado, residindo em áreas nobres, lideranças políticas e burocratas do governo desenvolveram uma cultura de casta. Não é papagaiando slogans de esquerda, ou fazendo propaganda de como tudo está indo bem ou atacando a administração anterior, que farão a grande maioria da sociedade voltar a sonhar com um país melhor.
Sei que essas mudanças exigem um esforço muito grande, em alguns casos um tempo longo, e nossos políticos não costumam se empolgar com nenhum projeto que demore mais tempo do que um ou dois mandatos.
Mas eles deveriam apostar no potencial de mudança do humor coletivo, que poderia ser criado por um grande e audacioso projeto nacional de mobilidade urbana.
Reitero, portanto, que todas as soluções para o problema nacional convergem para a mobilidade urbana e o transporte sobre trilhos. Seria a marca que falta ao governo Lula. Seria o grande legado do presidente às gerações futuras!
A classe média cosmopolita, que mora em áreas nobres, mais próximas a seu local de trabalho, e com acesso ao aeroporto, será beneficiária direta de um grande projeto de transformação da mobilidade urbana no país, caso este inclua a construção de trens de alta velocidade conectando as capitais. Por que o seu custo de deslocamento cairá brutalmente, abrindo novas oportunidades de trabalho e turismo. Além disso, à classe média serão ofertados os centenas de milhares de empregos de engenharia, administração, pesquisa, que a construção e a manutenção de um novo sistema nacional de mobilidade urbana exigiria.
Sobre a pesquisa, não tem nada perdido. Lula ainda é o favorito para 2026, e a aprovação deverá melhorar gradualmente, acredito eu, na medida em que a inflação de alimentos arrefecer, o que já está acontecendo. Mas o problema do Brasil não é pesquisa, não é aprovação do governo, e sim a ausência de grandes projetos nacionais na área de segurança pública e mobilidade!
Abaixo os gráficos da pesquisa Quaest. Leia a íntegra da pesquisa aqui.
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