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Titanic continua a afundar

Se havia alguma dúvida sobre se a lama ética em que Flávio Bolsonaro afundou nos últimos meses chegaria às pesquisas, a nova AtlasIntel/Bloomberg de junho responde. No primeiro turno, Lula abriu quase 11 pontos de vantagem sobre o senador.

O Brasil tem 158 milhões de eleitores aptos, número consolidado pelo Tribunal Superior Eleitoral em 7 de maio deste ano. Os 10,9 pontos que separam os dois no cenário estimulado equivalem a cerca de 17 milhões de eleitores.

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Eduardo Bolsonaro e Flavio Bolsonaro
Eduardo Bolsonaro e Flavio Bolsonaro, em abril de 2026. Flickr de Eduardo Bolsonaro.

Se havia alguma dúvida sobre se a lama ética em que Flávio Bolsonaro afundou nos últimos meses chegaria às pesquisas, a nova AtlasIntel/Bloomberg de junho responde. No primeiro turno, Lula abriu quase 11 pontos de vantagem sobre o senador.

O Brasil tem 158 milhões de eleitores aptos, número consolidado pelo Tribunal Superior Eleitoral em 7 de maio deste ano. Os 10,9 pontos que separam os dois no cenário estimulado equivalem a cerca de 17 milhões de eleitores.

Lula se mantém estável, com 47,2%, algo como 74,6 milhões de votos em potencial. Flávio Bolsonaro caiu para 36,3%, o equivalente a cerca de 57,4 milhões, e segue perdendo terreno a cada rodada do instituto.

Entre os demais nomes, o único que dá algum sinal de vida é Renan Santos, e apenas o consegue justamente porque bate duramente em Flávio. Romeu Zema e Ronaldo Caiado seguem subservientes e tímidos diante do bolsonarismo, evitam qualquer crítica mais firme e, por isso, continuam fora do jogo, numa posição francamente humilhante.

O quadro não melhora quando se troca o adversário. Se a candidata fosse Michelle Bolsonaro, Lula manteria os mesmos 47,1% e ela ficaria em 19,3%, uma diferença de quase 30 pontos.

No segundo turno, o movimento é ainda mais nítido: Lula sobe e Flávio despenca. O presidente chegou a 48,8%, crescendo cerca de um ponto por mês na série da Atlas, enquanto o senador perdeu seis pontos e caiu para 42,3%.

Evolução do 2º turno: Lula 48,8% x Flávio Bolsonaro 42,3%

A pesquisa também desmonta a lenda de que, sem Lula, acaba o PT e acaba a esquerda. Fernando Haddad aparece forte, com 39,7% no primeiro turno, já à frente de Flávio.

E no segundo turno tanto Haddad quanto Geraldo Alckmin derrotam o senador. É a prova de que existe no país um eleitorado progressista que não depende de um único nome: ele vota no candidato mais à esquerda que estiver na mesa.

Em todos os cenários de segundo turno, Lula vence. O dado importa porque, se houvesse um adversário capaz de desempenhar melhor que Flávio, esse nome poderia vender ao eleitorado o velho argumento de que só ele ganharia no segundo turno.

Mas 2018 já mostrou que esse raciocínio é furado. Quem não vai bem no primeiro turno não tem como bater no peito e prometer grandeza no segundo.

O que a AtlasIntel consolida, no fim, é o esvaziamento da candidatura de Flávio Bolsonaro, que ainda precisa lidar com uma crise misógina deflagrada dentro da própria campanha. Sua madrasta, Michelle Bolsonaro, veio a público dizer que foi desrespeitada e humilhada pelo enteado na queda de braço pela montagem da chapa no Ceará.

No mesmo momento, os escândalos ligados a Daniel Vorcaro, do Banco Master, seguem fermentando sem explicação. E, em vez de fazer autocrítica, a ala mais barulhenta do bolsonarismo escolheu culpar as próprias eleitoras.

Foi o que fez Paulo Figueiredo, neto do último ditador e uma das pontes da família com o trumpismo, ao dizer que as mulheres votam estatisticamente muito mal, sobretudo as solteiras, porque as casadas acompanhariam o voto do marido. A frase vai ecoar pelo resto da campanha, porque expõe a visão de mundo de quem prefere responsabilizar metade do eleitorado a rever o próprio programa e o próprio jeito de fazer política.

Baixe a íntegra da pesquisa Atlas aqui.

Veja mais gráficos abaixo.

Evolução do 2º turno: Lula x Flávio Bolsonaro

2º turno sem Lula: Alckmin (47,4%) e Haddad (46,4%) derrotam Flávio Bolsonaro

1º turno com Fernando Haddad: Haddad 39,7% x Flávio Bolsonaro 36,7%

2º turno: Lula vence todos os adversários, de +5,5 a +20,3 pontos

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Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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Cristina Rocha

01/07/2026

A metáfora do Titanic, neste contexto, é de uma acuidade que transcende a mera analogia factual, alcançando uma dimensão quase arquetípica na filosofia política. Não se trata apenas de um navio que rui em sua estrutura material, mas sim de todo um projeto – um projeto de poder calcado na anomia, na exacerbação de interesses particulares e na mais grotesca ausência de ética pública – que se revela insustentável. O “lamaçal ético” de Flávio Bolsonaro, como se menciona, não é um acidente isolado, mas sim o sintoma de uma arquitetura política que há muito tempo navega em águas turvas, ignorando os icebergs da desigualdade social, da injustiça histórica e da violência estrutural que marcam nossa formação como nação. Esse naufrágio é, em essência, o colapso de uma certa gramática de poder que se estabeleceu e se manteve através da captura do Estado por elites extrativistas.

A menção à ética aqui é fundamental. Para além das particularidades do caso, é preciso questionar qual é a fundação ética de um sistema que permite tal proliferação de práticas obscuras e impunes. O que vemos emergir, conforme o sumário aponta para o impacto nas pesquisas, é a lenta mas inexorável perda de hegemonia de um discurso que prometia ordem e limpeza, mas que, na prática, se revelou permeado pela mesma (ou pior) corrupção que denunciava. Este é um momento de verdade nietzschiana, onde as máscaras caem e a vontade de potência se revela em sua forma mais crua, desprovida de qualquer verniz moralizante. A crise do patriarcado, que se manifesta em tantas esferas da vida pública e privada, encontra neste cenário político um de seus mais claros espelhos, onde a masculinidade tóxica e a cultura do “mandar” se traduzem em desrespeito às normas e à coisa pública.

Os números das pesquisas, esses “17 milhões de eleitores”, são mais do que meros dados estatísticos; são a voz que irrompe do subalterno, um grito de basta de uma parcela significativa da população que se recusa a aceitar a falácia da “nova política” que perpetua velhas e danosas práticas. É a reafirmação de que o povo, mesmo submetido a bombardeios diários de desinformação e manipulação, ainda possui uma capacidade latente de discernimento e de anseio por justiça. Este movimento de maré, que indica uma mudança na preferência eleitoral, pode ser interpretado como um momento de “descolonização do imaginário político”, onde a narrativa dominante começa a ser questionada e desmantelada por uma visão mais inclusiva e socialmente responsável.

Portanto, o “Titanic afundando” não é apenas o naufrágio de uma carreira política ou de um governo específico. É o sinal de que um determinado modelo de sociedade – patriarcal, excludente e predatório – está encontrando resistência nas profundezas do oceano social. A tarefa que se apresenta é a de não apenas observar o afundamento, mas de questionar o que vem depois, que tipo de embarcação a nação brasileira deseja construir para navegar os desafios do século XXI. Que este momento seja um catalisador para a edificação de uma política verdadeiramente popular, feminista e comprometida com a emancipação de todos e todas, e não apenas com os privilégios de alguns.

    Luciana

    01/07/2026

    Muita palavra bonita, Cristina, mas enquanto o navio da política afunda em “gramáticas de poder”, a gente aqui vê é o preço do arroz e do gás subindo. Meu “colapso” é o juro do cartão que não para de comer meu salário. Quem vai resolver o que realmente aperta no nosso dia a dia?

    Luiz Carlos

    01/07/2026

    Muita teoria pra explicar o básico: político corrupto. Esse papo de “patriarcado” não paga conta e só desvia do que importa, Cristina: bandido solto e imposto lá em cima. O que afunda é o nosso dia a dia.

Marina Silva

01/07/2026

O sistema é a lama, e a gente tá aqui pra limpar tudo!

    Sargento Bruno

    01/07/2026

    A lama é real, Marina, isso ninguém duvida. Mas cuidado pra não sujar ainda mais na hora de “limpar”, especialmente quando as ferramentas são as mesmas que causaram a sujeira. Será que quem afundou o barco sabe mesmo como reflutuá-lo?

Cláudio Ribeiro

01/07/2026

Essa derrocada nas pesquisas reflete a cristalização de uma crise de legitimidade, onde a lama ética de um indivíduo torna-se o sintoma evidente de um projeto político falho. O afastamento das políticas públicas e a precarização da vida, frutos do ideário neoliberal, fatalmente corroem a base social de qualquer governo. Parece que a sociedade começa a dar um basta a essa hegemonia distorcida, como Gramsci bem alertaria.

    João Santos

    01/07/2026

    Crise de legitimidade”? Pra mim, o problema é bandido solto e gente que não quer trabalhar vivendo de esmola. Menos papo de livro e mais polícia na rua, Cláudio. Deus tá vendo.

      Paula Santos

      01/07/2026

      João, entendo sua angústia com a falta de ordem e a questão do trabalho, pois a Bíblia nos exorta à retidão e à diligência. Contudo, nossa fé também nos chama a olhar para as causas e para a misericórdia que restaura, não apenas pune.

Lucas Moreira

01/07/2026

Os números da AtlasIntel/Bloomberg, com Lula abrindo 11 pontos, são um gráfico mental preocupante. O Brasil não aguenta retroceder para políticas assistencialistas e de controle estatal que só travam nosso potencial e afastam investimentos. Precisamos de privatizações e menos Estado para gerar valor, garantindo a liberdade econômica. É o único bote salva-vidas para evitar o naufrágio completo.

    Cíntia Ribeiro

    01/07/2026

    Lucas, a interpretação desses números pode ser multifacetada. A eficácia de políticas públicas, sejam elas de viés assistencialista ou liberal, reside na sua capacidade de promover desenvolvimento e fortalecer as instituições democráticas, um equilíbrio que raramente se resolve em extremos.

      João Carvalho

      01/07/2026

      Cíntia, entendo seu ponto sobre o equilíbrio, mas, parafraseando Gramsci, o que chamamos de “extremos” muitas vezes são apenas manifestações de uma hegemonia que mantém o status quo. O foco, para mim, deve ser na reestruturação da própria embarcação para que ela navegue de forma mais justa e menos desigual para todos.

      Luiz Augusto

      01/07/2026

      Cíntia, a busca por um ‘equilíbrio’ entre o que funciona e o que claramente falha é o que nos afunda. Desenvolvimento e instituições sólidas exigem uma guinada real à liberdade econômica, abandonando a tutela estatal e o assistencialismo que minam nossa capacidade de progredir.


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