
A compra do Banco Master pelo Banco de Brasília (BRB) colocou o Banco Central (BC) no centro de uma disputa política e financeira. A operação, considerada uma das mais complexas em curso no sistema bancário nacional, está sob análise da autarquia e envolve ativos classificados como de alto risco.
O processo ocorre em meio a especulações, reações de agentes públicos e posicionamentos reservados de grandes instituições financeiras.
A operação foi formalmente protocolada no BC na última sexta-feira, 28, às 23h59, conforme informou o presidente do BRB, Paulo Henrique Costa.
Segundo ele, mais de 30 documentos exigidos foram entregues à autoridade reguladora, em cumprimento às exigências previstas na Resolução 108 do BC, que regula processos de reorganização societária no setor bancário. O prazo legal para conclusão é de até 360 dias, mas a expectativa é de que a análise seja acelerada.
A negociação prevê cinco etapas principais para que a transação seja efetivada: auditoria satisfatória dos ativos e passivos do Banco Master, reorganização da instituição adquirida, aprovação da formação de conglomerado prudencial liderado pelo BRB, homologação de aumentos de capital e autorizações antitruste por parte do BC e do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).
Segundo Costa, ativos considerados de maior risco, como precatórios, ações judiciais e participações societárias, não farão parte da operação. A estimativa preliminar desses ativos é de R$ 23 bilhões, podendo ser superior, conforme avaliação em andamento.
A aquisição reabriu o debate sobre a atuação de bancos públicos no sistema financeiro. O histórico de aquisições anteriores, como as compras do Panamericano pela Caixa Econômica Federal e do Banco Votorantim pelo Banco do Brasil, também envolveu instituições estatais e foi marcado por forte repercussão política e econômica.
O proprietário do Banco Master, Daniel Vorcaro, é conhecido por práticas consideradas de risco, como a emissão de Certificados de Depósito Bancário (CDBs) com altos rendimentos, lastreados no Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Estima-se que o Master tenha emitido cerca de R$ 50 bilhões em CDBs — aproximadamente 47% da capacidade total do FGC, hoje avaliada em R$ 107 bilhões.
A divulgação da operação provocou reações no mercado e no meio político. No fim de semana, surgiram rumores sobre encontros entre o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, e representantes dos bancos BTG Pactual e Itaú Unibanco.
A assessoria do BC negou qualquer reunião sobre o tema. “O Banco Central ainda não iniciou a análise da operação e, como de praxe, não comenta casos de instituições individualmente supervisionadas”, afirmou a autarquia à imprensa.
As movimentações geraram críticas públicas. Ricardo Cappelli, presidente da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) e aliado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, afirmou em publicação em rede social que a operação seria “um dos maiores escândalos do país”, alegando que o BC teria identificado problemas estruturais no Banco Master.
Cappelli, ex-secretário executivo do Ministério da Justiça, direcionou críticas à gestão do governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), responsável pela indicação de Costa à presidência do BRB.
Em resposta, Ibaneis afirmou que a gestão anterior “quase quebrou o BRB” e criticou o silêncio de Cappelli sobre investigações anteriores que envolveram a instituição durante a gestão do ex-governador Rodrigo Rollemberg.
O setor bancário acompanha o caso com cautela. Representantes de grandes bancos, que preferiram não se identificar, expressaram preocupação com a exposição do sistema ao modelo de negócios do Master.
Desde janeiro de 2024, o Banco Central tem adotado medidas para restringir o uso do FGC, exigindo maior alocação em títulos públicos, o que estaria diretamente relacionado à estratégia do banco adquirido.
A condução do processo representa um teste à presidência de Gabriel Galípolo no Banco Central. Sua nomeação já havia sido alvo de debates políticos, e a decisão sobre o caso poderá ser interpretada como um indicativo de sua independência e postura frente a interesses divergentes.
O anúncio da operação, antes da divulgação de fato relevante ao mercado, também provocou desconforto. A antecipação da informação foi interpretada por agentes do setor como uma tentativa de consolidar o acordo publicamente antes da manifestação formal do regulador.
Daniel Vorcaro, procurado, não se manifestou. Próximo ao senador Ciro Nogueira (PP-PI), ex-ministro da Casa Civil no governo de Jair Bolsonaro, Vorcaro foi citado em propostas legislativas polêmicas.
Em 2023, Nogueira apresentou emenda à Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da autonomia do Banco Central sugerindo ampliar a cobertura do FGC de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por investidor.
A repercussão da operação gerou tensões internas no BRB. A informação surpreendeu até funcionários do alto escalão, o que levou Costa a reunir sua equipe de gestores na sexta-feira e a convocar uma live com os demais colaboradores para esta segunda-feira (31). O objetivo é unificar a comunicação diante da repercussão institucional da iniciativa.
A situação também está sendo acompanhada por funcionários da Caixa Econômica Federal. Costa é servidor de carreira da instituição e exerceu cargos estratégicos antes de assumir a presidência do BRB em 2020. A aquisição do Master poderá marcar sua gestão com impacto duradouro no cenário bancário nacional.
Com informações da Folha