O romance da manipulação da inflação

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O governo de Milei tem usado números não representativos do custo de vida há mais de um ano. Os relatórios e reuniões confidenciais do FMI sobre a metodologia atualizada do IPC que a Casa Rosada se recusa a aplicar. A história do técnico demitido e a intervenção direta do Executivo no INDEC.

Por trás da desinflação alcançada pelo Governo — com uma tendência de queda que poderá ser interrompida em fevereiro — esconde-se uma novela de ocultação de números e atrasos insustentáveis ​​na aplicação de novas medições que constituem uma gestão controversa e antiética das estatísticas de Preços ao Consumidor pelo Executivo de Javier Milei. Há algumas semanas, iniciou-se um profundo debate sobre o assunto quando foi anunciado o número de inflação de janeiro de 2,2, quase um ponto abaixo do IPC da CABA, que é medido corretamente com uma cesta de 2018 (o INDEC faz isso com uma de 2004) e pondera mais os Serviços do que os Bens, o oposto do órgão oficial. Até sindicatos da CGT e da CTA saíram a público para alertar que “a inflação é um fantasma” e diversas consultorias privadas começaram a medir, paralelamente aos seus estudos, com base em 2018.

Os bastidores políticos de como Milei e o ministro da Economia, Luis Caputo, administram os destinos do INDEC, deixaram evidências muito concretas, funcionários que bloquearam a divulgação de novos indicadores, a curiosa demissão do responsável por fazer o novo IPC e até relatórios e reuniões com o Fundo Monetário Internacional em que o organismo já pedia ao Governo, logo que assumiu, que mudasse a metodologia de medição da inflação para não atrapalhar outros indicadores, que é o que começa a acontecer hoje com o índice de pobreza, PIB e salário. Por uma coincidência do destino, na última reunião com o FMI estava presente Graciela Bevacqua, diretora do INDEC que foi destituída pela intervenção de Guillermo Moreno na agência estatística.

Este último fato merece começar a história política de como o índice é manipulado a partir do capítulo final. Isso porque quase todos os atores envolvidos e aqueles que caíram em desgraça por lutar pela aplicação dos novos indicadores estão presentes no evento. Entre 27 de novembro de 2023 e 1º de dezembro, com Milei já presidente, o INDEC realizou uma sessão de intercâmbio com o FMI para alterar a base do IPC. O representante da organização foi Brian Graf, que abriu o evento junto com Marco Lavagna, presidente da entidade, e Pedro Ignacio Lines, ex-CEMA que atua como diretor técnico da organização e braço político da Rosada naquele local. Bevacqua também esteve presente, em caráter consultivo; a diretora nacional de Estatísticas de Preços, Analía Calero; a diretora de Índices de Preços ao Consumidor, Georgina Giglio, e a coordenadora da CPI, Marcela Almeida, que também havia sido deslocada com Moreno.

A primeira missão do FMI

Aquela primeira missão do organismo internacional foi solicitada pelo próprio Lines, mas quando o FMI chegou tudo mudou: o Fundo confirmou que o trabalho que havia sido feito com a nova metodologia do IPC estava correto e pediu para aplicá-la em abril de 2024. A única coisa que pediu foi que fosse utilizada a Pesquisa de Domicílios com evolução de preços. Quando Lines (que lutava para usar os dados das contas nacionais) percebeu que, com essa mudança, a inflação seria maior, começou a novela e o assédio aos técnicos que desenvolveram a metodologia. Paralelamente, o próprio Lavagna deu sinal verde para prosseguir com a mudança “se o FMI confirmar que está tudo bem “.

Aqui está um fato muito relevante: Brian Graf, o funcionário do FMI que participou dessas reuniões e endossou o IPC Nacional do INDEC com a nova fórmula que o Governo de Milei está escondendo, é o mesmo que endossou, anos antes, o IPC da CABA. Ou seja, o “INDEC” da Capital Federal aceitou e aplicou a nova metodologia que o INDEC nacional se recusa a aplicar, neste último caso a pedido político da Casa Rosada. Por que o governo de Milei decidiu não mostrar o novo IPC? A resposta é simples: porque mudar a metodologia significaria reconhecer 18 pontos a mais de inflação em 2024, o extra para 2025 e, principalmente, que a inflação dos dois últimos anos do Governo anterior (com os preços da energia efetivamente rebaixados) foi muito menor do que a reportada pelo IPC, tendo inclusive valores recordes que acabaram fazendo o governo Fernández perder a eleição.

Antes de sair daquela primeira visita ao INDEC, Graf, do FMI, não só deixou o pedido de mudança da cesta de 2004, como também de modificação das ponderações (dar mais peso aos Serviços e Taxas porque nas despesas familiares isso é mais importante hoje) e até de utilização de tablets em vez de formulários de papel para sair na rua para pesquisar preços.

Perseguição e demissões

Sem o FMI, os técnicos do INDEC começaram a trabalhar contra o relógio para montar o novo IPC. Ao mesmo tempo, segundo quem conhece a situação, os responsáveis ​​da organização, mas principalmente Lines, admitiram as pressões recebidas da Casa Rosada para não publicar o indicador atualizado e buscaram “ganhar tempo” para que o tema não fosse incluído na pauta. As instruções para Lines vieram diretamente do Ministério da Economia liderado por Caputo.

O tempo passou e, em outubro de 2024, o FMI retornou à Argentina para se reunir com autoridades do INDEC. Essas reuniões são registradas nos registros de renda da entidade e até mesmo nos relatórios do FMI. O enviado de Kristalina Georgieva foi, mais uma vez, Graf, que ficou surpreso ao ver que em menos de 8 meses eles conseguiram criar a nova fórmula e até implementar comprimidos em pesquisas de rua. “Eles fizeram isso em tempo recorde”, admitiu o funcionário do Fundo.

Após esta visita, o FMI emitiu um segundo relatório afirmando que todos os processos foram concluídos e que “recomendamos” que o novo IPC seja anunciado em novembro, referente àquele mês de 2024, para ser aplicado em janeiro de 2025. Naturalmente, isso não aconteceu e o INDEC começou 2025 com resultados tão ruins quanto em 2024.

Tudo isso aconteceu, aliás, dias depois de o INDEC decidir demitir Analía Calero, a responsável pela CPI e a que mais trabalhou na nova fórmula. Ninguém soube explicar por que ela deixou o cargo em meio ao debate entre a Rosada e o INDEC sobre a CPI. Ainda hoje, a organização se recusa a dar detalhes. O paradoxo dessa história é que Calero já havia sido expulso do INDEC na operação de Guillermo Moreno, na qual Alameida e Bevacqua também caíram. Todos os três retornaram durante o governo Macri e os dois últimos são assessores do órgão estatístico.

À beira de um escândalo político

Lavagna, que estava no INDEC desde a gestão de Sergio Massa no Ministério da Economia e, vale esclarecer, já trabalhava naquela época na fórmula para melhorar o IPC, se viu em meio a tensões que poderiam levar a um problema político para o Governo.

Os frequentadores dizem que acreditam que a nova metodologia deve ser aplicada “agora mesmo”. Na verdade, foi ele mesmo quem, meses atrás, deu uma entrevista de rádio nesse sentido, justamente quando a metodologia do INDEC começava a ser questionada. O fato é que o chefe do INDEC não se debruça apenas sobre a questão do IPC: ele sequer aplicou a nova metodologia que corrige a defasagem de 5 meses do indicador de salários privados não registrados, que foi o que mais impulsionou o último indicador. Além disso, há também um IPC mal medido, o que afeta muito a comparação de preços e o poder de compra dos salários.

Nesse contexto, o melhor exemplo da insatisfação de Lavagna com a administração é o que ele fez no final do ano passado: quando divulgou o penúltimo IPC, ele disponibilizou uma calculadora para que qualquer cidadão pudesse lançar suas despesas e calcular seu próprio custo de vida. Assim, fica claro que, mesmo para o chefe do INDEC, a amostra não é representativa.

Um dado que ilustra bem o cenário: nos corredores do INDEC correm rumores de que, assim como na era Moreno, o Governo utiliza indicadores mais precisos para calcular o restante das variáveis ​​de execução da gestão e da política econômica. O que é natural, dadas as distorções que surgem quando não atualizamos as fórmulas.

Publicado originalmente pela Página 12 em 26/02/2025

Por Leandro Renou

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