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março 2017

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FHC cospe na memória de Itamar Franco

Escrito por , Postado em Denise Assis, Redação


Nota publicada na coluna de Ancelmo Goes, Jornal O Globo, no dia 24 de março de 2017

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Nossa colunista, Denise Assis, durante o escândalo Lilian Ramos, era repórter da revista Manchete, uma das principais publicações da época. Em virtude de seu reconhecido profissionalismo, e por ser de Juiz de Fora (lugar de origem de Itamar), tinha frequente acesso ao Palácio do Planalto. Assis obteve sete entrevistas exclusivas com Itamar Franco. Ela contesta a versão de FHC, descrita na nota acima de Ancelmo Goes, que atribui à notória ingratidão do tucano e a seu vício de se apropriar de trunfos alheios.

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Pelas lentes da Ingratidão

Por Denise Assis, colunista do Cafezinho

Confesso que levei dois dias para me animar a escrever sobre o tema. A nota publicada na coluna do Ancelmo Gois, na sexta-feira, 24/03, tinha um “quê” de maldade. Não por parte do colunista, que se limitou a reproduzir a informação do ex-presidente. O veneno vinha de FHC. Reproduzia a coluna: “O tucano desabafa dizendo que, com Itamar na presidência, ele foi uma espécie de ama-seca do mineiro – impedindo mil crises, inclusive com os militares.”

Alguma surpresa? Não. Afinal, ele costuma fazer este número, o de querer sempre mais um pedaço da história. Da sua e a dos outros. Age como não se vê agindo os ex-presidentes americanos – apenas para falar dos seus ídolos – se imiscuindo na vida política do país. Mas a sua nostalgia do poder o faz um queixoso de que não o chamam “para opinar”, “para conversar”, para “governar”, em última instância… Talvez, em sua cabeça, aquela máxima: “quem foi rei nunca perde a majestade”, seja o seu norte de vida.

E foi assim, sem a menor cerimônia, que dentre vários fatos que compõem a sua interminável biografia, o “príncipe” foi buscar justo um dos episódios mais constrangedores da história recente, tendo como epicentro o seu padrinho, Itamar Franco, para dar publicidade ao seu novo tomo. Sim, é importante relembrar. Foi com a chancela de Itamar que Fernando Henrique chegou lá.
Na nota, FHC faz crer que a ausência de uma calcinha tenha posto o governo em risco, a ponto de apelarem para ele para a manutenção da governabilidade. É possível. Talvez tudo tenha se passado assim. Mas o que a nota não conta – e como acredito na generosidade das pessoas e na capacidade delas de serem gratas, creio que o livro revela -, é como este mesmo episódio fez com que o seu nome fosse anunciado, prematuramente, numa terça-feira de carnaval, em Juiz de Fora.

A folia se avizinhava e, como é de praxe, o governador Leonel Brizola fez o convite para que Itamar viesse para os festejos. Em geral, caso o convite seja aceito, o presidente é recepcionado no camarote do governador. Não naquele ano. Por ter assessores animados, amantes da Cultura (não vamos esquecer que o ex-ministro da Casa Civil, Mauro Durante, em sua juventude organizava os festivais da Canção, em Juiz de Fora), eles queriam vir em grande número e, para isto, solicitaram um camarote só para a turma do pão de queijo. Logo não faltou alguém da “banca da fauna”, para oferecer um espaço, vizinho ao camarote oficial.

Na redação, recebi um telefonema de Oswaldo Manescky, que acompanhava o meu trabalho como enviada a Brasília para fazer a cobertura do governo de Itamar. O assessor do governador Leonel Brizola estava preocupado com a vinda do presidente para um camarote “estranho” ao da oficialidade. Pedia que eu alertasse a turma de Juiz de Fora, pois ele sentia que algo estava sendo “preparado” para o presidente. Diante do exposto, vindo a informação de onde veio, liguei para o palácio e alertei sobre o perigo. A então chefe de gabinete e amiga de Itamar, Ruth Hargreaves, confidenciou que o meu telefonema havia gerado uma reunião de quase três horas, para que os riscos fossem todos avaliados. Inclusive pelo pessoal da segurança. Por fim, os mais afoitos: José Aparecido e Mauro Durante, amantes de reuniões e eventos, saíram felizes. O presidente viria.

Ficamos, eu e Manescky, numa expectativa ruim de que algo poderia acontecer. Pensávamos em agressões, qualquer coisa nesta linha, mas nada tão surpreendente como o que os jornais do dia seguinte estamparam. O presidente ao lado de uma “celebridade” com a “genitália desnuda”, expressão comedida usada na época, pela mídia.

A esta altura eu me encontrava curtindo uma praia na Região dos Lagos. Lá, sentada na areia (ainda bem), via perplexa a foto, quando o celular (sim, tínhamos um tijolão), tocou. Era a Ruth, me dizendo que o presidente estava constrangido, me pedia desculpas por não ter levado em conta o meu alerta, mas que me ligaria mais tarde.

Itamar ligou. Acometido de dor de garganta, como lhe acontecia sempre que estava aborrecido, com baixa de defesas imunológicas, ele reiterou as desculpas, e me pediu que o aconselhasse sobre o que poderia ser feito para remediar o escândalo. Ainda sob o impacto das notícias e charges que pipocavam de todos os lados, eu respondi que apenas um fato maior do que aquele poderia mudar a pauta. E sugeri: por que o senhor não antecipa o nome do seu sucessor? Ele então me contou por alto que estava discutindo exatamente isto com o senador Pedro Simon, seu amigo, e que tinham chegado a dois nomes: Antônio Brito e Fernando Henrique.

Eu então insisti. Defina e anuncie logo. Isto vai mudar radicalmente o noticiário. À noite, ele que havia se refugiado em Juiz de Fora, onde costumava buscar o apoio dos amigos e conterrâneos, declarou que estava cogitando o nome do ministro da Fazenda para a sua sucessão, em pleno desfile de blocos, na Av. Rio Branco. Como previa, o noticiário passou a perseguir a definição.

FHC relutou até março, quando uma charge do cartunista Chico Caruso, em que ele era reproduzido de camiseta, com ares tímidos diante de Itamar, parece ter mexido com os seus brios. Ademais, a revolução da troca do dinheiro pela Unidade Real de Valor (URV) animava o país, que ensaiava a troca definitiva da moeda pelo Real, levada a termo em julho daquele ano. Fernando Henrique era, enfim, o candidato. Itamar Franco não mediu esforços na campanha, fazendo o seu sucessor ainda no primeiro turno, em 3 de outubro de 1994.

É lamentável que, estando o padrinho morto, sem direito, portanto, de defesa, o afilhado olhe pelo retrovisor usando óculos de grau vencido, negando-lhe o reconhecimento devido, e colocando-o alguns níveis abaixo do que a história já registrou. A despeito do seu jeito, muito próprio, Itamar Franco fez do país uma república estável, levando o Brasil a retomar o rumo da democracia, que nos foi novamente surrupiada, com a ajuda de FHC, é bom que se registre.

 

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