O Cafezinho

quarta-feira

18

janeiro 2017

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Somente a informação pode vencer o golpe

Escrito por , Postado em Arpeggio, Assinante, Miguel do Rosário

“Os direitos políticos – isto é, a liberdade – reduzem-se a um simples direito de voto”. Esse é o resumo, um pouco melancólico, mas realista, que Hans Kelsen faz da democracia moderna, um regime no qual as liberdades são reduzidas a um mínimo. Os direitos políticos de uma democracia, segundo o jurista, sintetizam o que chamamos de liberdade, porque é a liberdade possível num Estado moderno.

Daí o perigo do impeachment, instrumento capcioso, que pode ser usado para matar (como aconteceu no Brasil) a derradeira liberdade política oferecida pela democracia de massas contemporânea ao solitário indivíduo. A experiência no Brasil serve, por isso mesmo, tanto como um modelo de golpe a ser exportado para democracias de qualquer país, como um exemplo de luta política para conter esse tipo de doença autoritária.

No tribunal internacional do golpe, que alguns juristas organizaram no Rio de Janeiro, em 2016, importantes acadêmicos opinaram que o impeachment não deveria existir num regime presidencialista, justamente por ser desvirtuado – transformado num golpe – com imensa facilidade. A instabilidade política natural do Brasil, derivada da profunda desigualdade de renda tanto na população em geral quanto dentro do próprio conjunto dos servidores públicos, da concentração da mídia, dentre outros fatores, é agravada pela existência do impeachment, e as consequências devastadoras do golpe de 2016 – sociais, econômicas, políticas – mostram isso.

O que deveria existir é a possibilidade de um referendo popular para se remover ou não o presidente. Por que aí o povo seria ouvido. Não ficaríamos expostos à humilhação insuportável de ver uma presidenta escolhida pelo voto popular por duas vezes consecutivas, em eleições consagradoras (na última, não pela diferença de votos, que foi pouca, mas por se eleger contra pressões tão espúrias e poderosas da mídia e do mercado internacional), ser removida por um parlamento que poderíamos chamar simplesmente de monstruoso.

Kelsen observa ainda que a hostilidade aos partidos políticos, fenômeno que vimos explodir no Brasil a partir de 2013, e a campanha de descrédito de que eles são alvo constante, nasce de uma hostilidade à própria democracia. Essa hostilidade sempre foi muito marcante nas monarquias constitucionais, e vemos o mesmo sentimento aflorar exatamente nos setores republicanos com mais afinidades monárquicas: as castas burocráticas, com todos os seus príncipes e aristocratas.

A participação de servidores públicos foi muito um fenômeno muito comum nas marchas de 2015 e 2016. Ela nos proporcionou o prazer algo maligno de saborear a prisão, por corrupção, de figuras públicas que, na véspera, empunhavam faixas contra a corrupção.

O que ficou evidente é que as marchas não foram contra a corrupção. As marchas foram contra a instabilidade provocada por uma guerra política sem tréguas entre dois grupos: de um lado, as castas burocráticas, que as circunstâncias fizeram se unir e inclusive se organizar de uma forma inédita, associados à maioria das empresas de mídia, desesperadas com mudanças tecnológicas que vinham lhe fazendo perder, rapidamente, poder e dinheiro, contra a maior parte da classe política, sindicatos, movimentos sociais e eleitores em geral.

Daí essa contradição que parece confundir alguns observadores desatentos da vida política nacional: a burocracia e a mídia desprezam o próprio governo que eles puseram lá. Quer dizer, o consórcio golpista sabe a hora de ser chapa-branca. A primeira coisa que o tribunal de contas da união, um dos representantes mais sórdidos e corruptos das castas da burocracia, fez após o golpe foi assumir posições favoráveis às pedaladas. Todas as acusações contra Dilma nunca passaram de pretextos políticos mal ajambrados, improvisados às pressas, para justificar a impaciência de setores sociais hostis ao processo democrático.

Kelsen denuncia a hipocrisia do pensamento, típico de um setor do serviço público cujo cargo não passa pelo filtro democrático, de que existe um Estado acima dos interesses pessoais e, portanto, superior moralmente aos partidos políticos. Esse Estado é ideal, mas simplesmente não existe. Ele cita o Zaratustra, de Nietzsche, que diz: “O Estado é o mais frio de todos os monstros. Ele mente friamente; de sua boca sai esta mentira: Eu, o Estado, sou o povo”.

Da mesma forma, é sempre um embuste a tentativa de vender um interesse nacional acima das diferenças de classe. Onde tem gente perdendo, há outros ganhando.

Os jornalões de hoje, por exemplo, anunciam que o Comando da Aeronáutica defende a privatização da rede de telecomunicações usada para defesa, vigilância e controle do tráfego aéreo.

Isso é justamente a essência do que não se deveria, jamais privatizar, por uma questão essencial de segurança pública. E, segundo o Estadão, a defesa desta loucura vem do próprio comando da Aeronáutica. Bem, provavelmente aconteceram produtivas conversas entre representantes das empresas interessadas e alguns oficiais da Aeronáutica, mas isso não parece preocupar mais o Ministério Público, a imprensa, a opinião pública.

O Brasil se tornou, subitamente, uma colônia ocupada, uma espécie de Iraque. A gente olha o Brasil como se estivéssemos a um oceano de distância, como se fosse um outro país.

Não há mais a minima preocupação em consultar a população acerca das decisões que mudarão dramaticamente a vida do país ao longo das décadas.

Os jornais, cúmplices do golpe, perderam há tempos qualquer escrúpulo de trazer um contraditório. E quando o fazem, é estratégia ou distração: mostram e escondem rapidamente.

O contribuinte brasileiro vai pagar para uma multinacional, que não é movida por nenhum compromisso ético com a população, controlar toda a comunicação do espaço aéreo brasileiro?

A imprensa corporativa não tem a mínima curiosidade de entrevistar especialistas críticos a esse tipo de coisa, nem de nos informar o que fazem outros países. O nível de desinformação que se instalou em nosso país é apavorante.

Ao mesmo tempo em que anuncia a privatização do controle da informação aérea, a imprensa e o governo nos brindam com inúmeras manchetes sobre o uso do Exército.

Qualquer problema no Brasil, fala-se em Exército. Temer anuncia que irá usar o exército para resolver o problema nos presídios, o que é a ideia mais estúpida que algum governo já teve nos últimos duzentos anos. O único resultado, óbvio, será a corrupção dos militares pelo PCC. Só falta essa agora. Os tucanos, depois de exportarem o PCC para o país todo, agora querem entregar o comando do exército a ele?

Ainda nas manchetes: governadores pedem exército nas fronteiras. A imprensa, perplexa com o caos que ela mesmo ajudou a criar, tenta acalmar o país a golpes de manchetes com a palavra exército.

Quando o Banco Central baixou os juros há alguns dias, os jornais bateram o tambor com uma unidade impressionante. Hoje, um jornalista da grande imprensa que tenta se tornar um pouco mais autônomo, Fernando Rodrigues, publicou um gráfico sobre as taxas de juros reais no mundo.

Esse era o gráfico que deveria constar na capa dos jornalões no dia seguinte à redução dos juros pelo Banco Central. Sim, porque, na situação em que nós estamos, não adianta reduzir a taxa em 0,75%. Nossos problemas são dramáticos e urgentes. Estados, prefeituras e empresas estão falindo, justamente porque suas dívidas crescem a uma velocidade incompatível com o tempo necessário para pagá-las. Comemorar a redução da taxa de juros, como fez a imprensa, foi mais um de seus crimes, porque ela não informa à população quantos bilhões de reais por dia o país perde com o pagamento dos juros nas taxas atuais, mesmo com qualquer ridícula redução abaixo de 1%. O Brasil não suportará, evidentemente, mais dois ou três anos de juros assassinos.

E não só isso: é preciso que alguém calcule quantos bilhões por dia o Brasil perde com a falta de negócios, ou com a falência de negócios, privados, proporcionada pelos juros altos.

É incrível que nem a imprensa, nem os industriais, nunca tenham pesquisado esse tipo de prejuízo.

Os pequenos empresários de setores avançados da economia, que podiam formar um núcleo dinâmico, vendendo serviços e produtos pela internet, a qual, num país com 206 milhões de pessoas, com graves problemas de circulação interna (por falta de infra-estrutura, sim, mas também pela barreira de seu tamanho geográfico exagerado), é um dos maiores mercados do mundo, não conseguem fazer negócios, porque os juros do cartão de crédito, principal meio de pagamento usado nas redes, são proibitivos.

A internet é cara, o que é maior estupidez possível. A internet deve ser barata, quase de graça, subsidiada pelo Estado, para dinamizar os negócios e a comunicação!

Vamos fazer algumas comparações com os Estados Unidos, seguindo a minha estratégia, já explicada em colunas anteriores, de convencer os setores menos radicalizados do coxinhato.

Há alguns dias, o New York Times publicou uma matéria interessante sobre os “cupons de alimentação” que o governo americano distribui mensalmente para milhões de pessoas. O gancho era uma pesquisa mostrando que um percentual alarmante dos recursos oferecidos às famílias estavam sendo gastos com refrigerantes, os quais, como apontam inúmeros estudos, não são saudáveis nem nutritivos.

Olha só: ao invés de fazer como a imprensa brasileira, que só falava do bolsa família para apontar fraudes, o NY Times procura especialistas para tentar aperfeiçoar o programa. A reportagem traz alguns números atualizados sobre o programa: ele beneficia 23 milhões de famílias, o que significa atingir quase 50 milhões de pessoas, diretamente. O valor médio do benefício é de $ 256 ao mês. A reportagem menciona ainda outros programas importantes do governo americano voltados para a questão nutricional: o Programa de Nutrição Complementar para Mulheres e Crianças (conhecido como Wic) e o programa nacional de alimentação escolar. Estes dois, diz a matéria, tem cuidados maiores com os alimentos que podem ou não ser comprados com os recursos federais.

Quando eu comecei a ter oportunidade de viajar mais para o exterior, uma das coisas que me chamou a atenção foi justamente a falta de informação, na imprensa brasileira, sobre a enorme quantidade de programas sociais existentes nos Estados Unidos e Europa. Houve um período em que eu assistia regularmente os telejornais dos canais abertos. Hoje, não mais. Nos anos 90, porém, eu assistia, e me lembro que nunca me deixava de me espantar com a quantidade de tolices e superficialidades que a Globo trazia sobre os Estados Unidos. Eu queria saber coisas que, até hoje, permanecem bloqueadas: há ou não vida sindical nos EUA. Hoje eu sei que sim. Há sindicatos tão ricos que pagam boa parte das campanhas presidenciais democratas. Há sindicatos poderosos no campo do audiovisual, e do roteiro, que sempre lutaram (e venceram muitas lutas), contra a concentração da mídia nos EUA.  Não fossem as lutas sindicais do setor, os EUA não seriam tão fortes e diversos no campo do entretenimento. A quantidade de produtores independentes pequenos e médios, que participam da realização inclusive de grandes sucessos de bilheteria é extraordinária. Não há essa cultura do monopólio, como vemos aqui com a Globo, em que uma novela que dura quase um ano é dirigida por um diretor. Uma série emprega dezenas de diretores e roteiristas. Os artistas são empoderados. Não se transformam, como aqui, em empregados de terceiro escalão, proibidos inclusive de se posicionar politicamente.

Eu sempre quis saber se há esquerda nos EUA e Europa. A imprensa brasileira nunca nos permitiu participar do debate político no primeiro mundo, sempre bloqueou qualquer informação que nos permitisse participar dos grandes debates globais. E agora, mais que nunca.

A campanha de desinformação e despolitização que a imprensa fez para levar adiante ao golpe provocou uma crise de analfabetismo político que nos transformou num país inviável do ponto-de-vista democrático.

A imprensa brasileira bloqueia tanto as informações vinda de Europa e EUA que poderiam constranger a narrativa neoliberal que eles tentam vender por aqui, e que os países ricos jamais implementaram, como aquelas que serviriam para termos uma visão mais cética em relação à riqueza e justiça social desses mesmos lugares. Por exemplo, nos EUA, há uma grande crítica à maneira como o desemprego é calculado. Qualquer pessoa cadastrada numa agência de empregos é eliminada das estatísticas de desemprego, mesmo que ainda não tenha encontrado nenhuma ocupação. Como quase todos se cadastram, até porque isso é obrigatório para receber as ajudas federais, que são inúmeras, então a taxa de desemprego fica muito baixa. É uma das estratégias para vender o império como um lugar perfeito. A imprensa americana, por razões puramente imperialistas, tem seus motivos para mentir. Não se explica, porém, que a imprensa brasileira copie a mesma estratégia.

Não conhecemos nem o lado bom nem o lado ruim do mundo desenvolvido, nem eles nos conhecem, justamente porque a nossa imprensa vende ao exterior uma imagem extremamente falsa e distorcida de nós mesmos.

Entretanto, o que mais espanta, depois de tantas viagens e leituras, é o nível estarrecedor de ignorância da classe média brasileira em relação aos países que ela admira. Essa ignorância também é cultivada pela imprensa.  A classe média tem uma visão romantizada do primeiro mundo, que ela adquire superficialmente apenas andando por suas calçadas limpas das áreas turísticas. Ela não infere que o desenvolvimento é fruto de três fatores: das lutas sociais que fundaram esses países, inclusive contra a concentração da informação, do respeito à pluralidade que, até hoje, ainda existe; e, finalmente, da exploração da ignorância das elites dos países atrasados, que, justamente por ignorância e deslumbre, vendem barato o seu próprio país, enriquecendo os países já ricos.

A história da ilha de Manhattan é emblemática. Os seus primeiros habitantes venderam a ilha pelo equivalente a alguns dólares, a um holandês. Até hoje a história se repete. Mas não sejamos injustos com os índios. Eles venderam uma ilha deserta, porque havia outros milhões de quilômetros de terra selvagem para onde podiam se deslocar. A ilha de Manhattan foi vendida porque – achavam eles – não lhes faria falta. E talvez também tivessem o pressentimento (porque será?) de que, se não vendessem, ela lhes seria tomada de maneira violenta. Os entreguistas do Brasil de hoje não tem nenhuma desculpa. Estão desmontando o que havia restado do país, privatizando às pressas, de maneira atabalhoada, a preço vil, sem impor contrapartidas ou restrições. Tudo isso apenas significa uma coisa: menos poder em mãos do povo, que mal ou bem, poderia cobrar de empresas pertencentes ao Estado, o que ficará mais difícil em relação a corporações obscuras, sem transparência, sem compromisso com nada. Estão nos entregando às piores máfias do mundo.

A lenda da “incompetência” do Estado na gestão de empresas, por exemplo, é desmascarada facilmente para o fato de que as empresas que se habilitaram para terminar a construção de Angra 3, são todas estatais: da Coréia do Sul, da França, da China.

Na Coréia do Sul, o mercado de energia é monopolizado por uma empresa controlada pelo governo, a KEPCO, o que permitiu que o país, mesmo sem uma gota de petróleo, sem carvão, sem grandes rios, se tornasse uma potência econômica. Por que? Por que o controle estatal do mercado de energia permitiu a regulação de preços, e a criação de um ambiente favorável aos negócios. A mesma coisa fez a Alemanha, que durante as décadas que se seguiram à II Guerra, subsidiou fortemente o mercado de energia, para beneficiar a sua indústria.

Todas essas informações sempre foram sonegadas à opinião pública brasileira, com vistas a criar por aqui esse preconceito histérico contra o bem público, que é um preconceito, na verdade, contra a própria democracia.

Enquanto isso, a imprensa cozinha a “mega-delação” de Marcelo Odebrecht, CEO da maior empresa de construção civil da América Latina, que foi criminosamente entregue de bandeja ao imperialismo americano.

Num dos documentos vazados no Wikileaks, informam-se que agências de espionagem do governo prestam serviços particulares a determinadas corporações privadas. É o que os próprios americanos chamam de corporacracia, o tipo de coisa que Bernie Sanders e milhões de americanos denunciam diariamente, mas que aqui, em nossa imprensa, é outra informação bloqueada. Quando os grandes vazamentos acontecem, a nossa imprensa faz matérias por uma semana, mas depois esquece tudo completamente. Eu me lembro desse fato porque Sergio Moro, numa discussão com o advogado de Lula, que tentava interpelar um dos réus da Lava Jato, sobre acordos celebrados com o governo americano, trata o assunto com sarcasmo. “você acha que ele é um agente do governo americano?”, diz Moro, num tom de deboche, dirigindo-se ao advogado.

Eu não sou antiamericano. Tive a oportunidade de ler muitos livros que me fizeram consciente de todas as violências que o império americano cometeu contra a América Latina e contra o mundo inteiro. Mas não sou antiamericano, porque estudei história demais para me deixar arrastar por tolos maniqueísmos ideológicos, e sobretudo por entender que os Estados Unidos é herdeiro de tudo de mal e bom do Ocidente. Ele representa o triunfo de uma ideia, a ideia de democracia. E aponta, igualmente, como uma democracia pode ser tão maligna quanto uma ditadura, no tratamento que dá ao outro: a todos aqueles que não são considerados membros daquela democracia em particular.

Entretanto, apenas um completo idiota, como Sergio Moro, para não saber que os Estados Unidos, independente de tudo que construíram de bom para si mesmos, tem um histórico profundamente agressivo de espionagem, sabotagem, guerras, contra democracias do mundo em desenvolvimento.

Ou seja, você pode amar os Estados Unidos. Mas ignorar fatos históricos que hoje são comprovados por tantos documentos, inclusive muitos recentes, de que agências federais dos EUA não tem qualquer escrúpulo para sabotar os interesses de um outro país, como o Brasil, lançando mão inclusive de sofisticados esquemas políticos, como são esses acordos internacionais que hoje governam a Lava Jato, para sabotar nossas empresas, derrubar governos e abrir espaço para mudanças abruptas de regime, como aconteceu no Brasil, é resultado de uma ignorância cultivada, ao longo de muitos anos, com doses cavalares de viralatismo.

É o famoso semiculto: o sujeito fala inglês, é juiz, estudou crimes financeiros nos EUA e de repente acha que entende de geopolítica, de espionagem, de história.

Não entende. É apenas mais um corrupto, sobretudo porque existem formas de corrupção muito mais perniciosas do que os estereótipos vendidos pela Globo, do pobre coitado enfiando dinheiro na cueca, ou fazendo oração da propina.

O tipo de corrupção praticado pelos membros da Lava Jato, por toda essa força-tarefa, é muito pior do que qualquer outro tipo de corrupção, porque eles tiveram papel determinante num golpe de Estado que, agora isso está mais claro que nunca, visava tão somente um saque brutal, violento, rápido, do patrimônio público nacional acumulado ao longo de muitas décadas de trabalho do povo brasileiro.

Este saque ao patrimônio público não terá fim com a “mega-delação” de Marcelo Odebrecht, que é aliás uma tática diversionista perfeita para distrair a opinião pública dos crimes que estão sendo cometidos pela atual administração. Ministros podem cair. O próprio presidente pode cair. Entrarão tucanos ainda mais corruptos, mais privatistas, mais descompromissados com valores democráticos. Farão um governo horrível, mas serão defendidos até o fim pela imprensa. Sairão do governo bilionários, mas não haverá nenhum procurador que os investigará. Daqui a alguns anos, quando tiverem destruído e emasculado completamente o Estado, serão obrigados a entregar o governo a forças progressistas, mas já planejando um golpe caso essas forças governem por mais de dez anos.

Por isso, a única saída do Brasil é a informação. Golias é grande, mas a inteligência de Davi sempre poderá vencê-lo. Por isso, apostemos em informação diversificada, em debate, em pesquisa, em inteligência. Invistamos em democracia. Concordo que não poderemos vencer o golpe com artigos. Nem mesmo furos de reportagem adiantam alguma coisa, visto que o Ministério Público só se move com reportagens da Globo, não com furos de blogs. Mesmo assim, tudo isso é importante, porque produz uma atmosfera. Interfere no espírito do tempo.

Apenas o povo, naturalmente, apenas a maioria da população, consciente do que está em jogo, pode mudar alguma coisa. Não tenho mais fetiche, porém, pelas “ruas”, até porque entendo que existe um desequilíbrio social muito grande aí também, que não sei porque os cientistas sociais não denunciam: o povo mora longe das “ruas”. Ele mora em periferias distantes, em cidades longínquas. Os sertanejos que votaram em peso em Dilma e Lula nunca puderam participar de um protesto na Avenida Paulista, enquanto o eleitor tucano pode fazê-lo tranquilamente, inclusive com passagem liberada pelo governo paulista.

O povo também não bate panelas, por duas razões. Primeiro, por educação. Ele não quer aporrinhar o seu vizinho, que não tem culpa, necessariamente, pelo que está acontecendo. Seu vizinho está namorando, vendo filme, curtindo a vida, não tem que ouvir um idiota batendo panela por causa de um opinião política que ele deveria expressar de maneira articulada, inteligente, fazendo um discurso, escrevendo um artigo, e não voltando ao tempo das cavernas. Segundo porque ninguém vai ouvir, porque não tem Globo na periferia. Não à noite, pelo menos.

“Ruas” são importantes, mas não podemos esquecer que o povo mora muito longe do que a mídia e a esquerda organizada considera “ruas”. A informação, ela sim, ela pode circular na velocidade da luz, e atingir qualquer periferia, e levá-la a fazer uma coisa muito mais importante do que ir às ruas. Poderá fazê-la pensar. E quando a periferia pensar, o Brasil dará um peteleco que catapultará os golpistas para o buraco de onde eles nunca deveriam ter saído.

Não vamos errar de novo.  Vamos apostar em informação. Por isso, faça parte do crowdfunding do Cafezinho.

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[Arpeggio – coluna política diária de Miguel do Rosário]

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