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janeiro 2017

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O tchau do Obama e a entrega do Brasil

Escrito por , Postado em Análise de Mídia, Assinante, Luis Edmundo Araujo

Espiando o poder: análise diária da grande imprensa

Foto: Charles Rex Arbogast/Associated Press

Por Luis Edmundo Araujo, colunista do Cafezinho

Muitos dirão, até com certa razão, que não muda muita coisa nos Estados Unidos com a saída de Barack Obama da Presidência. Nos dois mandatos do democrata, os EUA continuaram fazendo tudo o que sempre fizeram, matando gente à distância inclusive, por controle remoto com os drones que de vez em quando e longe, muito longe, nos rincões empoeirados do planeta atingem uma criança ali, um inocente acolá, ou mais. Mas não há como negar o simbolismo da imagem acima, repetida nas capas do Globo e da Folha hoje, e num ângulo diferente, de outro fotógrafo, no Estado de São Paulo. Sai o presidente negro, o primeiro da história, entra o branco, louro e republicano. Ao lado ou embaixo das fotos, as manchetes brasileiras mostram o avanço do golpe por aqui e as consequências disso lá e cá, expostas na capa do Estadão, por exemplo, na notícia principal, em que “Rio, Minas e RS terão rombo de R$ 19,5 bi”, e na chamada dentro dela, avisando no título que “obra da Petrobrás só terá estrangeiro”.

“Não é para moralizar, é para entregar o Brasil”, afirma o jornalista Fernando Brito, no título do link do dia, do Tijolaço, ao comentar a matéria do jornal paulista em que, lá dentro, no subtítulo, “por conta da Lava Jato, estatal convidou 30 grupos de fora do país para participar de concorrência para concluir unidade do Comperj”. A matéria informa que “grandes construtoras nacionais, envolvidas no esquema de corrupção, estão proibidas de fechar contrato com a estatal”. E Brito pergunta se “americanos, alemães, chineses, australianos e outros são ‘povos escolhidos’ e não há ladrões entre eles?”

Mais para o fim de seu texto, Fernando Brito afirma que a medida é coisa de “gente que vai roubar, de outra forma: roubar recursos ao Brasil, roubar empregos a projetistas e engenheiros que serão contratados lá fora, roubar conhecimentos técnicos estratégicos desenvolvidos pela companhia”. Pelo menos nove empresas convidadas a disputar a construção da unidade de processamento (UPGN), que vai receber o gás natural produzido a partir de 2020 no pré-sal da Bacia de Santos, “não mantêm sequer escritório no País”, diz a matéria do Estadão.

“Procurada, a Petrobrás não comentou a licitação e também não explicou porque apenas estrangeiras foram convidadas a concorrer”, continua a reportagem, e Brito cogita se as futuras empresas contratas não irão, também, “importar simples técnicos”. “São os frutos envenenados de Moro e sua Lava Jato: em nome da moralidade pratica-se a imoralidade da traição nacional”, conclui o jornalista, que lembra ainda que “nem mesmo a ditadura militar fez isso à Petrobras”, e arremata afirmando que “não é simples morte. É assassinato”.

Sinal de menos empregos ainda à vista para os brasileiros, enquanto a manchete da Folha diz que “Governo deve cortar R$ 3 bi em incentivos fiscais até 2018”. “Por receitas, Temer avalia suspensão de programas tidos como pouco eficientes”, avisa o subtítulo, e a primeira página da Folha não mostra nada do que o Estadão publicou na capa ontem, e que o Globo repercute hoje, também na primeira página, na chamada sob o título “De carona para Portugal”, na qual “o presidente do TSE, Gilmar Mendes, foi a Portugal no voo oficial que levou o presidente Temer para o velório de Mário Soares”.

“Gilmar, que julgará a chapa Dilma-Temer no TSE, não foi visto na cerimônia”, continua o Globo, na capa. E se ontem, na mesma primeira página o Estadão mostrou que “Gilmar ‘pega carona’ em avião presidencial” (um pouco abaixo de Eliane Cantanhêde dizendo que “o Brasil lucra quando os presidentes da República e do STF têm boas relações institucionais”), hoje, no último parágrafo da matéria no jornal carioca, “Gilmar ainda afirmou que não há razão para se justificar pela carona”.

Diz o ministro que ” se aceitar caronas, convites para almoçar e jantar comprometessem a atividade de cada um que os aceitasse, seria impossível trabalhar em Brasília”. Em seguida, Mendes parece alfinetar os jornalistas que o perguntavam sobre isso, como se passasse uma bronca ou precisasse mostrar quem é ele ao lembrar “quantas vezes sou convidado, por exemplo, para almoçar ou jantar com jornalistas e empresários de comunicação e isso nunca interferiu no trabalho deles, nem no meu”.

No editorial principal, “Triste sobrevoo”, a Folha discorre “sobre gastos com passagens aéreas de autoridades” falando no governador de Minas Gerais, Fernando Pimentel (PT), no senador Aécio Neves (PSDB) e nos ministros do STF Dias Toffoli e Luiz Fux, mas sem mencionar Temer, muito menos Gilmar Mendes. E no GGN, de Luis Nassif, o ex-ministro da Justiça Eugênio Aragão conclama todos nós a “fingir que é normal o juiz Gilmar pegar carona com o réu Temer”.

Aragão cita anedotário da literatura popular alemã “sobre uma cidadezinha chamada Schilda”, onde “inventaram um papel higiênico que se pode usar nos dois lados” para afirmar que “um julgador pegar carona com um réu a ser por ele julgado”, ou (lembrando de Alexandre de Morais) “um ministro da justiça se esquecer de que negara meios a uma governadora para evitar um massacre, mas que agora, diz, vai dá-lo a um outro (…) tudo isso não é muito diferente do uso de papel higiênico nos dois lados. Mas quem fica com as mãos borradas somos nós que fingimos estar tudo bem”.

Ambos do mesmo dono, o Globo e o Valor se concentram no martírio dos servidores do Rio de Janeiro. “Rio terá de reduzir salário e jornada de funcionários”, informa a manchete do jornal de economia, enquanto o outro diz que “acordo prevê redução de jornada e salário de servidor”. “Apesar da resistência do governador, venda da Cedae é outra decisão que o estado pode tomar como contrapartida à ajuda financeira da União para reequilibrar as contas fluminenses”, completa o subtítulo do Globo.

A informação é ratificada no blog de Lauro Jardim, que já havia cravado, há três dias, que a privatização da Cedae seria uma exigência da Fazenda para ajudar o Rio. Hoje, na nota “Tem que privatizar, só que…”, Jardim informa que o “governo quer usar a privatização da Companhia de Água e Esgotos do Rio de Janeiro (Cedae) como um case para os estados”, e que “a desestatização da Cedae é uma premissa para resolver o problema da dívida do Rio”. O “só que” fica por conta da informação de que, “na visão do governo, a privatização da Cedae tem que ser aprovada pela Assembleia Legislativa. E isso não é algo lá muito simples”.

E por falar em privatização, a coluna Painel, assinada por Paulo Gama nas férias da titular, Natuza Nery, conta na nota principal, “Gestão de capitais”, que “além da Umanizzare, terceirizada que gere o presídio em Manaus palco do massacre, Luiz Gastão Bittencourt tem outra empresa com contratos públicos”. “Ao menos desde 2004, a Serviarm faz vigilância privada para entes federais”, prossegue a nota, dizendo ainda que em 2016 a empresa “recebeu R$ 12 milhões dos ministérios da Educação e da Integração Nacional para servir a Universidade Federal do Ceará e o Departamento Nacional de Obras Contra as Secas”, e que “há 12 anos, ganhou R$ 420 mil para atuar no INSS cearense.”

A barbárie nas prisões, aliás, já sumiu da primeira página do Globo. Na Folha, ela aparece na chamada na qual, “em vídeo, policial sugere que preso seja decapitado”. E no Estadão, na página aí ao lado, é que ganha foto, ainda, com a imagem da mãe desesperada com a transferência do filho preso, de Itacoatirara para Manaus, onde, diz a legenda, ele “foi ameaçado por outros detentos”. A foto da mãe desesperada vem na capa em contraste com um Obama um pouco mais pra cima que o da Folha e o do Globo, talvez pela possibilidade, ainda pequena, de manter um legado de sua administração que sobreviva a Donald Trump, pelo menos de acordo com o editorial de hoje do New York Times.

“Alguns republicanos tentam impedir uma calamidade na saúde pública, conta o título do editorial, em tradução livre. Na primeira frase, o principal jornal americano diz que o “presidente eleito Donald Trump e outros líderes republicanos podem estar determinados a repelir o Affordable Care Act imediatamente, mas um grupo menor e mais sensível de membros do partido do presidente estão agora tentando freiar este trem desgovernado”.

Tais líderes, afirma o New York Times, reconhecem o perigo de destruir o programa que beneficia diretamente 22 milhões de pessoas, e que fez Obama ser taxado por muita gente em seu próprio país (e por aqui também) de socialista, comunista, marxista e demais “ofensas” do gênero ao batalhar por sua criação. De acordo com o editorial do New York Times, Trump já deve estar ouvindo, de integrantes de seu próprio partido, pedidos para não destruir o programa. Enquanto isso, por aqui só se fala em privatização, e as fotos das primeiras páginas, tanto as de Obama dando adeus quanto a da mãe em desespero, mostram que tudo pode piorar.

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