O tetraplégico e a mídia carrasca - O Cafezinho

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terça-feira

10

dezembro 2013

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O tetraplégico e a mídia carrasca

Escrito por , Postado em Conteúdo Livre

Publico abaixo dois textos sobre o mesmo tema. A tentativa escroque da Folha e de toda a mídia de usar o caso do tetraplégico preso na Papuda, que teve negado o seu pedido de prisão domiciliar, para humilhar ainda mais José Genoíno. O caso do tetraplégico é um escândalo judiciário e midiático. Do judiciário por condenar um tetraplégico a regime fechado por causa de ridículos 60 gramas de maconha e algumas pedrinhas de crack; e depois por negar a prisão domicilar. Essa juíza é um monstro, e como assim deveria ser retratada pela imprensa.

É também um escândalo midiático porque a imprensa tinha a obrigação moral de protestar contra uma arbitrariedade tão gritante contra os direitos humanos. Prender um tetraplégico na Papuda por causa de 60 gramas de maconha? Onde está o Conselho Nacional de Justiça a essa hora? Cadê o Joaquim Barbosa? Ah, está na mídia, recebendo aplausos…

Por fim, usar esse caso para prejudicar José Genoíno é o cúmulo do mau caratismo. É sadismo em dose dupla! Pelo menos agora, a nossa mídia deixou claro que ela não está ao lado dos direitos humanos, da civilização e da democracia. Como sempre, alinha-se aos torturadores e à ditadura!

*

O sadismo em dose dupla da Folha

Por Miguel do Rosário, no Tijolaço

O sadismo da mídia brasileira revela-se, dia a dia, de forma cada vez mais descarada. Confira essa notícia, publicada em página nobre da Folha de hoje. Fala que um tetraplégico teve prisão domiciliar negada. Ao invés de ser uma notícia em formato de denúncia, pois é óbvio que se trata de mais uma arbitrariedade odiosa do judiciário, a Folha usa a informação para atacar e humilhar Genoíno. Afinal, ele não é tetraplégico, certo?

A arbitrariedade do caso do tetraplégico é espantosa. Em primeiro lugar, ele nem deveria ter sido preso por tráfico: a polícia encontrou nove pedras de crack e 60 gramas de maconha em seu poder. É óbvio que não é um traficante, ainda mais sendo tetraplégico. Não tinha nem que ser preso, e se pede prisão domiciliar, tinha que recebê-la imediatamente!

Mas não. A mídia prefere que o tetraplégico fique preso na Papuda, porque isso justificaria a estadia também de Genoíno. É o sadismo em dose dupla! No caso de Genoíno, ao sadismo físico é acrescido o sadismo midiático, que é humilhá-lo diariamente, com exemplos matreiros como esse, para minar sua imagem junto à opinião pública.

E a reportagem, ao final, ainda traz um trecho descontextualizado da junta médica escolhida por Barbosa, sempre com a intenção de humilhar e massacrar José Genoíno.

*

Genoino e o tetraplégico preso em Papuda

Por Luis Nassif, em seu blog.

O preso não tem nome. O advogado pediu que não fosse divulgado e o jornal acatou. Não por respeito – e desde quando um jornal acata pedidos dessa ordem. Mas pela única razão de que é um anônimo, talvez um José de sobrenome da Silva. Não é celebridade para aguçar a curiosidade, nem classe média com o qual o leitor se identificar, nem ativista político, para despertar paixão e ódio, nem intelectual que possa ser romanceado.

É apenas um tetraplégico preso no presídio de Papuda.

Em sua casa, na periferia de Brasília, a polícia encontrou nove pedras de crack, mais de 60 gramas de maconha e R$ 900 em dinheiro. Pelas cotações de mercado, no máximo R$ 90 reais em crack, R$ 120 em maconha. O suspeito alegou que não estava sozinho em casa, que a droga não era dele, apenas parte dela, para consumo próprio.

A reportagem não detalha como um tetraplégico morava sozinho em casa e ainda tinha disponibilidade para traficar drogas. Mas informa que, mesmo antes da condenação definitiva, foi trancafiado em regime fechado na Papuda, sem direito à prisão domiciliar. Reincidente, foi condenado a 7 anos de prisão fechada.

Devido ao seu estado, o advogado pediu prisão domiciliar. O Ministério Público opinou pela aceitação. Aí a direção da Papuda garantiu que tinha condições de trata-lo e o MP voltou atrás, assim como a juíza Rejane Teixeira, da Terceira Vara de Entorpecentes, que anotou na sentença que “relatório enviado pelo presídio informou que o requerente está obtendo tratamento médico, realizando curativos nas úlceras, com bom estado geral”.

Segundo a reportagem, o tetraplégico depende de colegas para comer e se limpar. Usa fraldas e a urina fica armazenada em uma sonda que ele carrega consigo.

Mas ganhou uma relevância insuspeita. Nem se imagine o jornal, procuradores, juízes, ativistas de direita ou esquerda preocupados com as condições de um tetraplégico preso. Nem se imagine os bravos procuradores do DF envergonhando um poder que se gaba – com razão – da defesa dos direitos dos anônimos. Ou ONGs de direitos humanos levando seu caso para as cortes internacionais.

O tetraplégico anônimo ganhou a condição de álibi. Para o jornal, tornou-se álibi para destacar os “privilégios” de José Genoíno. Se um tetraplégico que precisa ser carregado pelos próprios colegas de cela permanece preso, porque um cardíaco em estado grave tem direito a prisão domiciliar?

Quando os holofotes da mídia acenderam, tornou-se álibi também para os procuradores exigirem imediatamente a isonomia, de presos políticos e presos comuns irmanados no desrespeito aos direitos individuais.

Para a direita, é álibi para desancar os “privilégios” de Genoíno; para a esquerda, o tetraplégico deve ser esquecido por não ter ficha de filiação partidária e nem uma história pregressa nobre para ser incensada.

Quando os médicos de Joaquim Barbosa admitiram que o quadro de Genoíno era sério, mas aceitaram as explicações da Papuda, de que poderia dar o atendimento necessário, os jornais celebraram. Circularam informações esparsas, de que o presídio não dispunha sequer de ambulância, ou de atendimento médico 24 horas.

Mas ninguém se habilitou a dissecar o que é o presídio. Os jornais, para não darem razão a Genoíno; os procuradores, para não expor sua falta de cuidados para com os direitos dos presos; o PT, porque o foco de interesse é apenas a cela que abriga Genoíno, Dirceu e Delúbio.

Nesses tempos de bestificação, de exacerbação do ódio e de falta de generosidade, a lembrança do tetraplégico anônimo, preso em Papuda, ainda se constituirá na prova maior de uma opinião pública que perdeu o sentimento de humanidade.

beccaria2

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